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quinta-feira, 2 de junho de 2016

O Poderoso nome de Jesus




 
 
A fé é a Vitória  ( 1 Jo. 5,4)
"E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho." (João 14,13)
"Tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar." (João 16.23b )
De acordo com estes versículos, temos o direito de pedir ao Pai a cura em Nome de Jesus Cristo e seremos curados. Se cremos na Palavra de Deus, podemos pedir, em Nome de Jesus, e receberemos o que pedimos. Isto é o que diz 1João 5,14 . Se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade - e, com certeza, a cura é Sua vontade para todos.
Se você está sofrendo enfermidades, tem o direito de pedir que o Pai o cure. Então, tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis (Mc 11,24).
Contudo, observe que devemos pedir no Nome de Jesus.
Há poder no Nome do Senhor Jesus Cristo.
Está escrito em Filipenses 2,9-10:
"Deus... deu-lhe um nome que é sobre todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, [anjos], e na terra [homens], e debaixo da terra [demônios]." (Filipenses 2,9-10)
Os seres de três mundos devem dobrar o joelho ao Nome de Jesus. Este Nome exerce controle absoluto sobre Satanás e todo o seu reino.
Pedro disse ao coxo: Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda; e o homem andou (At 3,6b).
Paulo disse a um demônio: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela; e a mulher insana foi perfeitamente restaurada
(At 16,18).
Jesus nos deixou Seu Nome. Este Nome habita conosco. Temos o direito de usá-lo. A Satanás é ordenado respeitar este Nome que é sobre todo o nome, e todo o seu reino tem de obedecer às nossas ordens, quando dadas em Nome de Jesus Cristo. (Veja Lc 10,17)
Lembre-se de que foi Jesus que venceu o pecado, Satanás, a doença, a morte, o inferno e o túmulo; e nós temos o direito legal de utilizar o Seu Nome.
Esse direito é seu. Peça-lhe e receberá saúde no precioso e poderoso Nome de Jesus.
Faça isso agora! Essa verdade opera agora - bem aí aonde você está!
Jesus nos deu a permissão de utilizarmos seu Nome em oração.
"E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei." (João 14,13-14)
E mais: Até agora, nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria se cumpra (Jo 16,24).
Podemos louvá-Lo grandemente pelo direito de usar Seu Nome em oração!
Se você precisa de cura, peça-a ao Pai, em Nome de Seu querido Filho, receba-a, e sua alegria se cumprirá.
Pedro, fiando-se na palavra de Jesus, disse ao coxo que necessitava de cura: Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda:
Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda; e o homem andou (At 3,6b).
Em Colossenses 3,17, aprendemos que: E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.
Em Efésios 5,20, aprendemos a dar sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Em 1 Coríntios 6.11, foi-lhes dito que haviam sido lavados, santificados e justificados em Nome do Senhor Jesus e pelo Espírito de Deus.
Em Hebreus 13,15, somos admoestados a oferecer sempre sacrifício de louvor... [ao] Seu nome.
Em Tiago 5,14, somos instruídos a ungir os enfermos com azeite no nome do Senhor.
E em 1 João 3,23, lemos que o seu mandamento é este: que creiamos no Nome de seu Filho Jesus Cristo.
"Se você tiver fé, Jesus disse: Nada vos será impossível" (Mt 17,20c).
"Ele disse: se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito" (Jo 15,7).
Disse também: Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei (Jo 14,14).
E novamente: "Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis" (Mc 11,24).
Logo que você crer, Deus Se agradará em permitir que você veja, porque a fé é (...) a prova das coisas que se não vêem (Hb 11,1).

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Reflexões sobre as razões do sofrimento: por que existem a dor e o sofrimento neste mundo?






O sofrimento e o amor: dois modos de encarar a mesma dor


FAZ ALGUNS anos, no espaço de um mês, tomei conhecimento de dois casos muito parecidos, porém totalmente diferentes em seus efeitos: dois casos de pais que haviam perdido um filho adolescente de maneira repentina e trágica. Conversei longamente com o primeiro e, uns trinta dias mais tarde, com o outro. O primeiro afundara-se numa dor insuportável, que lhe abalou os alicerces da vida e lhe asfixiou a fé. Repetia depois, ao longo dos anos, num desabafo amargo e cheio de rancor, que a sua vida tinha perdido o sentido, que não sabia se Deus existia ou não, mas que não se importava, porque já o tinha apagado dos pensamentos e não queria saber mais dEle. Fechado na sua solidão desesperada, definhava e tornava difícil a existência dos que conviviam com ele. Sem a luz da fé, o homem fica abandonado ao turbilhão da vida, é como um cego golpeado por um mundo cruel e incompreensível, sem outra alternativa a não ser a revolta, a frieza, a resignação ou o desespero.

O segundo pai sofreu tanto como o primeiro. Perder um filho é uma das maiores dores da vida. Mas não permitiu que o sofrimento lhe vendasse os olhos nem se encapsulou na sua dor. No meio das lágrimas, fixou com força o olhar da alma em Cristo crucificado e, unido a Ele, rezou: “Pai, seja feita a vossa vontade”. Dentro do seu coração ele dizia: “Não entendo essa Tua vontade, Pai, mas eu creio em Ti, eu espero em Ti, eu Te amo acima de todas as coisas”.

No velório, ver esse pai – e a mãe igualmente, com o mesmo espírito - a rezar junto do corpo do filho, não causava constrangimento, mas comunicava uma serenidade superior a qualquer paz que se possa experimentar nesta terra, e elevava a todos para Deus, cuja presença era palpável. Era uma serenidade estranha e poderosa, misturada com uma dor muito forte, que ficava sendo um enigma para os frios e os descrentes. Era mesmo um lampejo da Sabedoria da Cruz, de que fala São Paulo (Cf. 1 Cor 1,18-25).


Entender e saber

Como este segundo pai, nós também muitas vezes não entendemos o sofrimento, e é natural. É difícil compreender a doença incurável, a incapacitação física, a ruína psicológica dos que amamos, o desastre econômico… Não entendemos, mas… sabemos, – com a certeza indestrutível da fé, - que Deus é Pai, que Deus é Amor (I Jo 4,8) e, portanto – como diz com cálido otimismo São Paulo, - nós sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rom 8,28). Faz concorrer também, e muito especialmente, os sofrimentos que Ele mesmo nos envia, ou os que Ele permite, ainda que os não queira, porque causados pela maldade dos homens.

Então, essa nossa fé – Dom precioso de Deus que não queremos extinguir, – nos permite o paradoxo inefável de sofrer e ter paz, de sofrer e manter no íntimo da alma uma misteriosa e fortíssima serenidade, uma imorredoura esperança. Assim sofreu Cristo na Cruz e assim sofreram os santos. Os que se entregam nas mãos de Deus Pai sentem que a Cruz se lhes torna doce; – uma Cruz sem Cruz, - e os inunda de uma suavidade amável. Eles escutam e escutarão sempre as palavras de Cristo, que nos diz, na hora da dor: "Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11,28-30). E chegarão a exclamar, como Santa Teresa de Ávila: “Ó Senhor, o Caminho da Cruz é o que reservais aos vossos amados!”


A dor que faz amadurecer

Num conto intitulado "O Espelho", João Guimarães Rosa descreve, simbolicamente, uma experiência que os místicos cristãos conhecem em profundidade. O protagonista da estória empreende a aventura de descobrir o seu verdadeiro rosto – o seu autêntico eu – num espelho-símbolo. Tenta olhar de tal modo que depure da sua figura tudo o que é superficial, animal, passional e espúrio, e acaba não vendo nada: “Eu não tinha formas, rosto?” Prosseguindo na experiência, só “mais tarde, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes”, quando “já amava – já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria”, é que começou a ver-se como o esboço inicial de um menino, que emergia do vazio, isto é, viu o seu rosto verdadeiro, que começava a nascer. No final da estória, o protagonista pergunta-se: “Você chegou a existir?”...

O escritor lembra-nos, com isso, que a pessoa que não sofreu não aprendeu a amar de verdade; e que a pessoa que não aprendeu a amar, não amadureceu; pode-se dizer que ainda não está “feita”, ainda não “existe”.

Nós…, existimos? Somos aquele que deveríamos ser, aquele que Deus espera de nós? A resposta – sim ou não - dependerá quase sempre de como sabemos sofrer. Tem muita razão o poeta que diz: “As pessoas que não conhecem a dor são como igrejas sem benzer”.

Deus nos faz com o sofrimento, modela-nos como um escultor, dá-nos a qualidade de um verdadeiro homem ou mulher, de um verdadeiro filho de Deus. A Cruz – poderíamos dizer - é a grande ferramenta formativa de Deus.

Três meses antes de morrer, São Josemaria Escrivá fazia um rápido balanço da sua vida, e resumia: “Um olhar para trás… Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora tudo alegrias, tudo alegrias… Porque temos a experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, um Cristo, o alter Christus [o outro Cristo] que temos de ser”.

Essa visão essencialmente cristã é a que lhe inspirou sempre a pregação sobre a dor, baseada na sua própria experiência de alma enamorada de Deus: “Não te queixes, se sofres", escrevia ele. "Lapida-se a pedra que se estima, que tem valor. Dói-te? – Deixa-te lapidar, com agradecimento, porque Deus te tomou nas suas Mãos como um diamante… Não se trabalha assim um pedregulho vulgar”.

Deus sempre nos faz bem por meio da Cruz, seja qual for, quando nós o “deixamos” fazer. Assim como nos salvou pela Cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da Cruz. Não exclusivamente mediante a Cruz – também nos santificam as muitas alegrias, os trabalhos que amamos, os carinhos que nos enriquecem…– mas certamente não sem ela, a Cruz.


A dor que nos purifica: sofrimento redentor

A Cruz, o sofrimento, purifica-nos. O sofrimento abre-nos os olhos para panoramas de vida maiores, mais verdadeiros e mais belos. O sofrimento ajuda-nos a escalar os cumes do Amor a Deus e do Amor ao próximo.

São inúmeras as histórias de homens e de mulheres que, sacudidos pelo sofrimento, acordaram: adquiriram uma nova visão – que antes era impedida pela vaidade, a cobiça e as futilidades - e perceberam, com olhos mais puros, que o que vale a pena de verdade na vida é Deus que nunca morre, nem trai, nem quebra; descobriram que nEle se acha o verdadeiro Amor pelo qual todos ansiamos e que nenhuma outra coisa consegue satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça rói nem os ladrões levam (Mat 6,20). E perceberam, enfim, que os outros também sofrem, e por isso decidiram esquecer-se de si mesmos e dedicar-se a aliviá-los e ajudá-los a bem sofrer.

É uma lição encorajadora verificar que, na vida de São Paulo, as tribulações se encadeavam umas às outras, sem parar, mas nunca o abatiam. É que ele não as via como um empecilho, mas como Graças de Deus e garantia de fecundidade, de modo que podia dizer de todo o coração: "Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo" (2 Cor 4,10). E ainda: "Sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo; porque quando me sinto fraco, então é que sou forte!" (2 Cor 12,10). E até mesmo, com entusiasmo: "Nós nos gloriamos das tribulações, pois sabemos que a tribulação produz a paciência; a paciência a virtude comprovada; a virtude comprovada, a esperança. E a esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado". (Rom 5,3-5). É o retrato perfeito da alma que se agiganta no sofrimento, que se deixa abençoar pela Cruz.


São João da Cruz

Outro exemplo muito significativo: uma perseguição injusta por parte de seus próprios confrades arrastou São João da Cruz a um cárcere imundo. Todos os dias era chicoteado e insultado. Mal comia. Suportava frios e calores estarrecedores. Para ler um livro de orações, tinha que erguer-se nas pontas dos pés sobre um banquinho e apanhar um filete de luz que se filtrava por um buraco do teto. Pois bem, foi nesses meses de prisão, num cubículo infecto, que ganhou o perfeito desprendimento, alcançou um grau indescritível de União com Deus e compôs, inundado de paz, a Noite escura da Alma e o Cântico Espiritual, obras que são consideradas dois dos cumes mais altos da Mística Cristã. E, uma vez acabada a terrível provação, quando se referia aos seus torturadores, chamava-os, com sincero agradecimento, “os meus benfeitores”...

As histórias de mulheres e de homens santos que se elevaram na dor poderiam multiplicar-se até o infinito: mães heróicas, mártires da caridade… Daria para encher uma biblioteca só a vida dos mártires do século XX, como São Maximiliano Kolbe, que na sua Cruz – na injustiça do campo de concentração nazista, nos tormentos e na morte – achou e soube dar o Amor e a vida com alegria.

Essas almas santas estão a escrever, no dizer de João Paulo II, “um grande capítulo do Evangelho do sofrimento, que se vai desenrolando ao longo da história. Escrevem-no todos aqueles que sofrem com Cristo, unindo os próprios sofrimentos humanos ao seu sofrimento salvífico…”

"No decorrer dos séculos e das gerações, tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular, que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma Graça particular. A esta ficaram a dever a sua profunda conversão muitos santos como São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola. O fruto de semelhante conversão é não apenas o fato de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. Encontra como que uma maneira nova para avaliar toda a sua vida e a própria vocação. Esta descoberta constitui uma confirmação particular da grandeza espiritual que, no homem, supera o corpo de uma maneira totalmente incomparável. Quando este corpo está gravemente doente, ou mesmo completamente inutilizado, e o homem se sente como que incapaz de viver e agir, é então que se põem mais em evidência a sua maturidade interior e grandeza espiritual; e estas constituem uma lição comovedora para as pessoas sãs e normais” (Papa João Paulo II em Salvifici Doloris, n. 26).


A dor que nos chama

Mas estamos falando dos mártires, dos grandes sofrimentos de alguns santos, e não devemos esquecer que também é a Cruz, a santa Cruz, cada uma das contrariedades, dores, doenças, injustiças e mil outros padecimentos menores, que Deus envia ou permite na nossa vida diária, para nos santificar.

Vai-nos ajudar a pensar nisso uma frase incisiva de São Josemaria, comentando a passagem da Paixão de Cristo em que os soldados obrigaram Simão Cireneu a carregar a Cruz de Jesus: “Às vezes, a Cruz aparece sem a procurarmos: é Cristo que pergunta por nós”.

A maior parte das “cruzes” aparece-nos sem as termos procurado. São as moléstias físicas ou psíquicas; são os aborrecimentos que surgem no mundo do nosso trabalho; são as dificuldades e aflições econômicas, o desemprego, a insegurança… Ou então os sofrimentos que surgem no convívio habitual com a família: asperezas de caráter do marido ou da mulher, desgostos com os filhos, parentes desabusados ou intrometidos, indelicadezas, ofensas…

Todo tipo de sofrimento nos interpela. Que resposta lhe damos? Não poucas vezes, a nossa reação espontânea é a irritação, o protesto, a aflição, a tristeza, o desânimo, a queixa. Há corações que não sabem sofrer, ficam perdidos diante dos sofrimentos cotidianos, e sucumbem esmagados por “cruzes” que sentem como se fossem uma laje que os asfixia, quando Deus lhas oferece como asas para voar.

Deveriam lembrar-se do mau ladrão. Junto de Jesus crucificado, deixou-se arrastar pelo ódio à Cruz. Morreu contorcendo-se e espumando de raiva na sua cruz inútil. Pelo contrário, o bom ladrão soube descobrir na sua cruz uma escada que lhe serviu para chegar a Cristo e subir ao Céu (Cfr. Luc 23,39-43).

Não vale a pena contorcer-se e protestar. Assim, Deus não nos poderá lapidar. Sofreremos mais e inutilmente, e nenhum proveito tiraremos da dor. Qualquer sofrimento nos interpela, diremos. Também Cristo foi interpelado, na Cruz, por todo tipo de sofrimento, por cada um daqueles padecimentos com que o feriram os nossos pecados. E como respondeu? De cada ferida que recebia, brotava um ato de Amor e uma virtude. Esse é o exemplo para o qual devemos olhar.

Acusado com mentiras revoltantes, responde com mansidão. Provocado maldosamente, responde com o silêncio. A cada chicotada, a cada espinho que lhe fere a cabeça, a cada prego que lhe atravessa as mãos e os pés, responde com a paciência; a cada ofensa, responde com o perdão; a cada escarro, a cada bofetada, responde com a humildade; a cada bem que lhe tiram (sangue, pele, honra, roupas) responde dando Amor; à rejeição dos homens, responde entregando-se totalmente por eles.


A cruz que ensina a amar

Perante cada pequeno desaforo, Deus nos diz: "Por que não respondes com um silêncio paciente e humilde como o meu, sem ódio nem discussões? Se te custa aguentar o caráter daquela pessoa, por que não te esforças por viver melhor a compreensão e a desculpa amável? Quando alguém te ofende, por que - sem deixares de defender serenamente o que é justo - não te esforças por perdoar, como Deus te perdoa?”

E, assim, quando as dores físicas ou morais – os desgostos, as decepções, os fracassos, os fastios, o tédio, a solidão, a depressão…- nos acabrunham, a voz cálida de Cristo crucificado convida-nos a ser generosos e a subir um degrau na escada do Amor; a crescer na mansidão, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos, bem-estar e posses materiais; sobretudo, a meter-nos mais decididamente na fogueira de Amor que é o Coração de Cristo, com desejos inflamados de corresponder, de desagravá-lo, de imitá-lo, de unirmo-nos ao seu Sacrifício Redentor. Todos esses sentimentos fazem grande bem à alma cristã.


A cruz que faz “co-redimir”

Há algumas palavras de São Paulo que encerram um grande mistério, que encerram uma Verdade sobrenatural muito profunda sobre a vida nova do cristão. São as seguintes: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja" (Coloss 1, 24).

A rigor, nada falta à Paixão de Cristo, pois o Sacrifício de Jesus mereceu infinitamente a Redenção de todos os crimes e pecados do mundo. Mas o Senhor quis que os cristãos, membros do seu Corpo Místico, “outros Cristos”, pudessem associar-se ao seu Sofrimento Redentor, unindo a Ele os seus próprios padecimentos.

Na Carta Apostólica já antes citada sobre o sentido cristão do sofrimento, o Papa João Paulo II desenvolve uma bela reflexão sobre esta verdade: “O Redentor sofreu em lugar do homem e em favor do homem. Todo homem tem a sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar daquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar daquele sofrimento por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo” (n. 19).

E, mais adiante, glosando a frase de São Paulo que agora meditamos, o Papa complementa essa reflexão: “O sofrimento de Cristo criou o bem da Redenção do mundo. Este bem é em si mesmo inexaurível e infinito. Ninguém lhe pode acrescentar coisa alguma. Ao mesmo tempo, porém, Cristo, no mistério da Igreja, que é o seu Corpo, em certo sentido abriu o próprio Sofrimento Redentor a todo o sofrimento humano. Na medida em que o homem se torna participante dos sofrimentos de Cristo –em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história—tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento, mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo” (n. 24).

Neste mundo em que, ao lado de tantas bênçãos de Deus, tantas almas sentem com força os ventos e tempestades do pecado, as almas generosas que sofrem com Amor, unidas ao Senhor, são como que “outros Cristos”, que contrabalançam com a sua “Cruz” o peso dos crimes do mundo. Tornados eles próprios uma só coisa com Cristo sofredor, são esses homens e mulheres bons – os santos, os mártires, os inocentes, os doentes, as crianças, os “humilhados e ofendidos”…- os que mantêm no mundo, como uma tocha acesa, a esperança da Salvação. Uma só mulher humilde que oferece, em sua cama de hospital, seus sofrimentos a Deus, faz mais pelo bem do mundo do que muitos dos que o governam.

É paradigmática a cena de São Francisco de Assis no Monte Alverne. Era a manhã de 14 de setembro de 1224, festa da Exaltação da Santa Cruz. Retirado nas solidões dos Apeninos, ele rezava ajoelhado diante de sua cela, antes de que raiasse a alva. Tinha as mãos elevadas e os braços estendidos, e pedia: “Ó Senhor Jesus, há duas graças que eu te pediria conceder-me antes de morrer. A primeira é esta: que na minha alma e no meu corpo, tanto quanto possível, eu possa sentir os sofrimentos que tu, meu doce Jesus, tiveste que sofrer na tua cruel Paixão! E o segundo favor que desejaria receber é o seguinte: que, tanto quanto possível, possa sentir em meu corpo esse amor desmedido em que tu ardias, tu, o Filho de Deus, e que te levou a querer sofrer tantas penas por nós, miseráveis pecadores”.

A oração foi ouvida. Um serafim, que trazia em si a imagem de um crucificado, imprimiu-lhe as chagas de Cristo nas mãos, nos pés e no lado. Francisco, até no corpo, tornou-se visivelmente um “outro Cristo”.

Ref.: FAUS, Francisco. A Sabedoria da Cruz, São Paulo: Quadrante, 2001.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Quem não é contra nós está a nosso favor?






Com a ajuda de Deus e sob a orientação da Igreja, tentaremos responder satisfatoriamente à questão, que não é nova. A pergunta pode parecer complexa, mas a resposta é bem simples. Antes de dizer qualquer coisa, é preciso repetir uma máxima primordial da Teologia católica: a primeira realidade que todo leitor da Bíblia deve ter em mente é que o Livro Sagrado só pode ser lido e entendido como um conjunto coeso, de livros que se completam e estão interligados, um dando sentido ao outro. Esta é uma premissa fundamental para a leitura das Sagradas Escrituras. – É muito, muito fácil legitimar qualquer tipo de falsa crença ou mesmo heresia anticristã usando a Bíblia. Basta pinçar uma passagem e usá-la isoladamente, fora do seu devido contexto: o texto, fora do seu contexto, pode servir como pretexto.
A passagem citada é um ótimo exemplo desta realidade. Ela vem sendo usada para justificar todo tipo de sincretismo e irenismo. O sincretismo, como você sabe, é a tentativa de misturar ou fundir crenças e sistemas religiosos diferentes, – e/ou até mesmo contrários, – na tentativa de fazer de tudo uma só coisa. O resultado é sempre o surgimento de um novo sistema de crenças: uma nova seita. E irenismo se refere àquela postura (tão comum em nossos dias) de calar diante de injustiças e mentiras em nome da paz e do respeito humano. Para "ficar bem" com todo mundo, a pessoa admite tudo, aceita tudo como certo, que tanto faz, porque no fundo "é tudo a mesma coisa"... Esquecendo-se que "para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada", como já dizia o filósofo (Edmund Burke).

Como dissemos, porém, a Bíblia precisa ser compreendida em sua totalidade, como aquilo que ela realmente é: um conjunto de livros que, em harmonia, transmitem uma só Mensagem, sem confusão, sem sombras, sem contradições. A Palavra de Deus não pode fazer uma afirmação numa parte, e, depois, renegar esta mesma afirmação numa outra parte. Estaria nosso Jesus afirmando, na passagem em questão, que "a religião da pessoa não importa", desde que acreditemos nEle ou falemos em nome dEle? Vejamos, então, o que a própria Bíblia tem a dizer sobre isto:

"De fato, não há dois Evangelhos: há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas ainda que alguém, nós ou um anjo baixado do céu, vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que seja anátema! Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!" (Gl 1,6-8)

Ninguém gosta de ouvir a palavra "excomungado" hoje em dia. A sensibilidade das mentes atuais vê neste vocábulo uma expressão de autoritarismo, de uma Igreja que tenta impor sua fé à força, na marra. Nestes tempos em que o relativismo reina, absoluto, falar em excomunhão é quase um crime. "Excomungar", porém, simplesmente quer dizer que aquela pessoa, que crê e defende uma doutrina contrária àquilo que Jesus ensinou, não não faz parte da Igreja que Jesus deixou; tal indivíduo não representa a Igreja, não pode ser considerado membro dessa Igreja.

E é assim que deve ser, por motivos óbvios! Se a Igreja não tivesse agido assim desde o começo da sua história, hoje nem haveria mais Evangelho: as crônicas sobre a vida e os ensinamentos do Cristo teriam sido perdidas há muito séculos; as palavras do Mestre haveriam naufragado num mar de doutrinas conflitantes, para nunca mais serem encontradas. E as heresias no meio da Igreja começaram a surgir, como sabemos, desde o tempo dos Apóstolos. Observe como o Apóstolo Paulo, na passagem que ora estudamos, demonstra que já naquela época existiam elementos tentando disseminar um "outro evangelho", em nome de Jesus Cristo, no meio da Igreja, e deixa mais do que claro que tais elementos não poderiam jamais ser considerados como membros da Igreja. A ênfase é tamanha que ele chega a dizer que mesmo um anjo do Céu, se anunciasse um evangelho diferente, deveria ser considerado anátema, isto é, solenemente reprovado, extirpado, afastado da convivência entre os cristãos!

Assim, retornando à afirmação de Jesus no Evangelho de S. Marcos, o que precisamos fazer é ler e analisar não uma parte da passagem, mas ela inteira:

"João disse-lhe: 'Mestre, vimos alguém, que não nos segue, expulsar demônios em teu Nome, e lho proibimos'. Jesus, porém, respondeu-lhe: 'Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um prodígio em meu Nome e em seguida possa falar mal de Mim. Pois quem não é contra nós é a nosso favor. E quem vos der de beber um copo de água porque sois de Cristo, digo-vos em verdade: não perderá a sua recompensa. Mas todo aquele que fizer cair no pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria que uma pedra de moinho lhe fosse ligada ao pescoço e o lançassem ao mar!'" (Mc 9,38-42)

Observe como o complemento do ensinamento, destacado em negrito, é fundamental para dar sentido e colocar as primeiras afirmações no seu devido contexto. O Senhor Jesus está claramente se referindo àqueles que, em unidade, professam a fé no seu Nome. Mas quem fizer cair em pecado os que creem em Cristo, – mesmo que fale em seu Nome, – será condenado. Também é essencial entender que, na época em que ocorre esse episódio, não existia ainda a Igreja. Alguém expulsava demônios por meio da fé no Nome do Senhor, e a fé em Cristo nunca é ruim, a não ser quando, em nome desta mesma fé, se deturpa aquilo que o próprio Cristo ensinou. E ainda no mesmo Evangelho, no capítulo 13, o Senhor profetiza que muitos falsos profetas viriam em seu Nome, e que os cristãos deveriam rechaçá-los. Fica claro, portanto, que não basta falar em Nome de Jesus para ser confiável ou para estar "a nosso favor".

Concluindo, não é difícil compreender que a afirmação de Cristo, neste caso, não é absoluta, isto é, não podemos considerar "a nosso favor" todo aquele que prega ou fala "em Nome de Jesus", pois nesse caso teríamos que incluir aí os ocultismos, gnosticismos, espiritismos e todo tipo de seita que deturpa completamente a Mensagem do próprio Cristo. De fato, são milhares de seitas perniciosas ao redor do mundo que se pretendem detentoras da "verdadeira" interpretação do Evangelho, e todas elas se contradizem entre si.

Estudando a história da Igreja, vemos que os cristãos católicos sempre se conduziram, fundamentalmente, pela instrução da Igreja Una, a única Igreja fundada diretamente pelo Senhor Jesus Cristo e que guarda a Tradição dos Apóstolos. E o que é a Bíblia Sagrada cristã? É a Tradição dos Apóstolos por escrito: nós só temos a Bíblia e cremos nela, hoje, porque a Igreja, nos primeiros séculos do cristianismo, atestou que deveríamos crer nela, e a separou de muitos outros livros apócrifos, que eram igualmente atribuídos aos Apóstolos e lidos solenemente nas comunidades primitivas da Igreja.

Por isso é que não podem existir muitas "igrejas", cada uma ensinando uma coisa, cada qual disputando contra a outra, baseando-se na interpretação pessoal que cada "pastor" faz da Bíblia. Observe que praticamente todas as igrejas ditas "evangélicas" são unânimes em criticar a Igreja Católica, muitas vezes chamando-a de "prostituta", apontando o Papa como "anticristo" e outras blasfêmias terríveis. Como poderíamos dizer, então, que existem "muitas igrejas", e que todas são iguais perante Deus? Jesus disse: "Sobre esta Pedra (Pedro) edifico a minha Igreja", – no singular, e não "minhas igrejas", no plural. – Só há uma Verdade, e a Bíblia reafirma: "Há um só Senhor, uma só Fé e um só Batismo" (Ef 4,4-5).

Não basta qualquer pessoa ler a Bíblia, interpretar "do seu jeito", se dizer "pastor" ou intitular-se a si mesmo "bispo" ou "apóstolo", registrar uma razão social, alugar um salão e dizer que é "igreja". Igreja não é prédio, não é empresa, não é uma razão social. A Igreja é o Corpo Místico de Jesus Cristo neste mundo (Ef 5,23), e este Corpo não se divide contra si mesmo. A Cabeça deste Corpo é o próprio Cristo, como a Bíblia mesmo ensina, e este Corpo é íntegro e coeso. Uma perna não pode andar para um lado, e outra perna para outro. Um pé não pode querer ir para frente e outro para trás. Os braços não podem golpear o corpo, e cada um dos seus órgãos precisa trabalhar numa harmonia perfeita, em conjunto, para que o Corpo seja saudável. – É a missão do cristão e uma aventura maravilhosa comprovar, a cada nova descoberta, que existe uma caminho certo que nos leva a Cristo e à salvação.

Diante do exposto até aqui, que dizer? Não existem pessoas bem intencionadas em outras comunidades ditas cristãs, que agem de boa consciência e que poderão ganhar a salvação por Misericórdia Divina?

A Igreja crê que existem elementos de santidade e verdade presentes em várias religiões (CIC§819), e isso é uma verdade inegável, da qual poderíamos enumerar muitíssimos exemplos: há alguns anos, o controverso "pastor" Silas Malafaia deu exemplo de postura cristã num debate com o candidato petista à prefeitura de São Paulo; falou como todo bom católico deveria falar; agiu, em relação a determinados assuntos, como deveriam agir os padres e bispos católicos, que muitas vezes são omissos em questões importantes. Antes disso, ele já tinha acertado ao confrontar Edir Macedo quanto à questão do aborto, e também ao defender a Igreja Católica por conta das imagens de santos profanadas na famigerada "parada gay" paulista. E veja bem, estamos falando do representante de um seita indubitavelmente herética, um homem que prega a abominável "teologia da prosperidade" e acusa a Igreja de Cristo de "idólatra".

Veja como é claro que, mesmo podendo dizer algumas verdades, não é por pregar "em Nome de Jesus" que tudo o que alguém diz ou faz esteja certo. Ao contrário: quando alguém se coloca como "mestre" ou "pastor", em Nome do Senhor, e ao mesmo tempo prega contra a Igreja deste mesmo Senhor, seu erro é tremendo. Mesmo assim, por outro lado, até na pregação de um herege podemos encontrar elementos de santidade e de verdade. Não há dúvida de que, em algumas de suas pregações, muitos "pastores" dizem grandes verdades, e que podem interpretar corretamente determinados pontos isolados das Escrituras. E também cremos que a salvação não está fechada para ninguém, até mesmo para os não cristãos, conforme orienta a Santa Igreja. O Catecismo afirma que aqueles que, sem ter opção, não puderam conhecer Jesus Cristo nesta vida, não serão condenados. É o que a Teologia chama de "ignorância invencível".

Mas nada disso muda o fato de que existem uma Só Verdade e uma só Igreja, Corpo Místico de Nosso Senhor, a qual contém em si mesma todas as verdades das quais necessitamos para a nossa salvação.

Concluindo, mais uma vez insistimos, prezado Gabriel, que a Bíblia precisa ser compreendida em sua totalidade. A fala de Jesus claramente alude à unidade que deve existir dentro da Igreja, entre os diferentes grupos, possuidores de diferentes carismas. Também a convivência pacífica e a busca da união entre os cristãos deve ser constante, – e a Igreja tem trabalhado incessantemente neste sentido, – mas é preciso saber reconhecer e diferenciar as coisas. Conviver bem não é sinônimo de sincretismo e nem de irenismo.

Na esperança de que a pergunta tenha sido respondida, e de que o nosso esforço não tenha sido em vão, na Paz de Nosso Senhor agradecemos pela participação e pela confiança em nosso apostolado. Deus abençoe e ilumine com discernimento a todos os que lerem este artigo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Amor-caridade: o vínculo da perfeição cristã







“É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15,12)
O CATECISMO DA IGREJA Católica (CIC) diz, entre outras coisas, que “a caridade é a virtude pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus” (§1822). É uma belíssima e própria definição, além de bastante completa.
Antes de tudo, é preciso definir o que significa a caridade no contexto genuinamente cristão. Esta caridade, da qual pretendemos tratar aqui, é a mesma coisa que Amor, – grafado assim, com inicial maiúscula, porque designa a forma mais alta de amor, justamente o Amor/caridade, – Amor com o qual o próprio Deus é identificado nas Sagradas Escrituras, como veremos mais adiante.

Ocorre, porém, que ao vocábulo "amor" se atribuem múltiplos significados na língua portuguesa. – Diga-se de passagem, é esta uma das palavras mais “maltratadas” de nossa língua pátria, usada muitas vezes para dizer daquilo que o Amor não é, e às vezes até para significar o seu oposto. – Amor, em português, pode significar afeição, compaixão, misericórdia, inclinação, atração, apetite, paixão, bem-querer, satisfação, desejo (sexual ou não) e até, muito indevidamente, o ato sexual em si.
O conceito mais popular de amor envolve, geralmente, o vínculo emocional com alguém ou com algum objeto. Fala-se em amor físico, platônico, materno/paterno, filial, à pátria, à casa, ao carro, à vida, a Deus. As dificuldades trazidas por essa diversidade de sentidos estão não só nos idiomas modernos, mas também no grego e no latim, que possuem outras palavras para amor, cada qual denotando um sentido específico (não nos aprofundaremos aqui nestes termos, suas raízes e seus significados, o que demandaria um estudo próprio).
Fato é que a linguagem humana não é capaz de exprimir integralmente a riqueza imensa que esta pequena palavra tenta significar. Santo Agostinho diz, a propósito, que precisamos saber decifrar a diferença entre amor e luxúria. Luxúria é vício e pecado; amar e ser amado é a busca essencial do ser humano. Diz ainda o Doutor da Igreja que a única Pessoa capaz de amar plenamente é Deus, pois o amor dos homens é falho, sujeito ao ciúme, desconfiança, medo, raiva.

A Igreja ensina que o Amor/caridade é uma Virtude Teologal. Segundo as Sagradas Escrituras, Virtudes Teologais são as que nos ligam diretamente a Deus, e são fundamentalmente três: a Fé, a Esperança e a Caridade; porém a maior é justamente a Caridade (1Cor 13,13). Quem ama se doa a si mesmo, gratuitamente; é incapaz de usar o próximo e de se autoafirmar. É manso, humilde, sereno, receptivo. No texto que é possivelmente o mais belo já escrito sobre o Amor/caridade, em sua primeira carta aos coríntios, S. Paulo Apóstolo diz:

Ainda que eu distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver Amor, de nada valeria.
O Amor é paciente, o Amor é bondoso. Não tem inveja. O Amor não é orgulhoso. Não é arrogante nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará; o Amor jamais acabará. (1Cor 16,3-8)
Também S. João Evangelista, – não sem razão “o discípulo a quem o Senhor amava”, – inspirado pelo Espírito Santo produziu linhas de incomparável beleza, nas Sagradas Escrituras, sobre o Amor; chegou, por fim, a identificar esta virtude, – a Virtude das virtudes, – ao próprio Deus (Jo 4,16). Jesus Cristo, Deus Filho, Verbo de Deus encarnado, é também o Amor de Deus encarnado; Amor em forma humana.
Por isso é que o Amor verdadeiro, aplicado nas relações conjugais, torna-as comunhão de entrega e de receptividade, de dádiva mútua do ser e de afirmação mútua da dignidade de cada parceiro. Esta comunhão homem-mulher, unidos sacramentalmente e por laços de Amor autêntico, é ícone da Vida do próprio Deus, e leva não apenas à satisfação, mas à santidade e a um sentimento de profunda realização.
Assim, a sexualidade, que é fonte de prazer, segundo a Doutrina católica não serve exclusivamente à função de procriar (como teimam em dizer certos inimigos da Igreja), mas também tem um papel importante na vida íntima conjugal. A relação sexual conjugal é expressão do Amor da Igreja, na qual homem e mulher se unem e se complementam reciprocamente.
Para diferenciar o Amor que é sinônimo de caridade dos outros sentidos que se emprestam à palavra, bastaria dizer que o Amor/caridade é a virtude cristã por excelência, porque Jesus Cristo fez da caridade seu novo e supremo Mandamento, amando-nos até o fim (Jo 13,1) e manifestando o Amor do Pai, que Ele próprio recebe: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada. (...) Assim como o Pai me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 14,23;15, 9).
Fruto do Espírito e plenitude da Lei: para o cristão, simplesmente praticar a caridade, por si só, já garante o cumprimento de todos os Mandamentos divinos. Ora, é claro e evidente que aquele que ama acaba por cumprir, – naturalmente, – a Vontade de Deus: quem ama a seu pai e sua mãe vai honrá-los, não porque lhe é ordenado, mas por consequência natural e inevitável do amor que possui e cultiva dentro de si. Do mesmo modo, ninguém em sã consciência vai assassinar a pessoa que ama (se for verdadeiro amor), nem roubá-la, nem prestar falso testemunho contra ela, nem cobiçar seu cônjuge, nem os seus bens, etc. Assim é que a caridade é o ‘vínculo da perfeição’ (Cl 3, 14) e a base das virtudes: é a fonte e o termo da prática cristã.
Agora que sabemos o que é o Amor/caridade, resta lembrar que o Cristo morreu por amor a cada um de nós, e o fez quando éramos ainda seus “inimigos” (Rm 5,10). Do mesmo modo, o Senhor espera que, como Ele, amemos incondicionalmente, a Deus e a todos, mesmo aos nossos inimigos. Ensinou que o nosso próximo pode ser qualquer um, especialmente aquele que menos esperamos, na parábola do bom samaritano (Lc 10,29ss). E diz que devemos nos fazer mais próximos dos mais afastados, e que amemos especialmente os sofredores e desamparados.
Por fim, fortalece nossa esperança saber que a caridade purifica a nossa capacidade humana natural de amar, elevando-a à perfeição sobrenatural do Amor divino. A caridade exige a prática do bem e a correção fraterna; é benevolente; é desinteressada e liberal. A consumação de todas as nossas obras é o Amor/caridade. É a origem e o fim, pois Deus mesmo é Amor/caridade: é para a conquista dEle que corremos; somente nEle descansaremos, como exclamou Sto. Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto e não descansará enquanto não repousar somente em Ti”.

sábado, 21 de maio de 2016

A morte, o Juízo Particular e o Juízo Final





Para refletir sobre o fim da nossa vida neste mundo é conveniente lembrar primeiro da sua origem. “Deus criou o homem imortal, o fez à sua imagem e semelhança. Por inveja do demônio entrou no mundo a morte” (Sb 2, 23-24). Nós não fomos criados para a morte. Haviam no Paraíso duas árvores: a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a Árvore da Vida. A única proibição de Deus a Adão e Eva foi comer do fruto da primeira, e mesmo assim eles pecaram, afastando-se da Graça, perdendo sua condição especial de criaturas amadas e próximas de Deus. Foram, então, expulsos do Paraíso. Um dos significados mais profundos dessa narrativa é bem claro: a causa da morte é o pecado, que separa de Deus.

A morte é castigo, porém um castigo de Pai. Deus sendo infinitamente Bom e Misericordioso, fez até da justa punição um meio de nos reconduzir ao Caminho da vida. Mesmo hoje, no estágio atual da história da humanidade, nem mesmo aos que foram restaurados pelo Sacrifício de Cristo convém, ainda, a imortalidade. – Morreremos todos para este mundo, para alcançarmos um destino muitíssimo melhor do que esta vida repleta de limitações, decepções, misérias e dores.

É interessante notar que a morte, mesmo sendo o fim natural de todos os seres vivos, sempre nos causa estranhamento e sofrimento. Ficamos inconformados quando ela chega. Por quê? Se, como diz o provérbio popular, “a morte é a única certeza desta vida”, por que não somos capazes de encará-la com naturalidade e tranquilidade?

A resposta católica é: nós não nos conformamos com a morte porque fomos feitos para a imortalidade. Foi para a vida eterna que Deus nos fez, por isso não aceitamos o fim de tudo.



Exatamente por isso a fé é necessária. Precisamos da fé para ganhar a vida plena e eterna após a morte. O mais grave é que a maioria de nós prefere simplesmente deixar este assunto para depois, não pensar nisso agora: é como fingir que a realidade inevitável da morte não existe. Muito mais prudente  e sensato seria pensar no assunto, e muito, desde agora, porque nossa alma é imortal, e quando deixarmos este mundo, nossa história estará apenas começando...

O pó voltará a ser pó, mas a alma é incorruptível. E cada um de nós será julgado conforme suas obras. “A árvore para no lugar onde caiu” (Ecl 11,3). Por isso, é fundamental morrer em estado de Graça, morrer “revestido de Cristo”, em Comunhão com Deus. Tudo o mais é secundário. “Que adianta ao homem possuir o mundo inteiro e perder a própria alma?” (Mc 8, 36). Como não sabemos nem o dia nem a hora de nossa morte, o cristão está sempre preparado para ela.


Juízo Particular

“Está destinado aos homens morrer uma só vez, e depois disso vem o julgamento” (Hb 9, 27).

"É por isso que, vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-Lhe. Porque teremos de comparecer diante do Tribunal de Cristo. Ali, cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo" (2Cor 5,9-10).

Todos serão julgados logo após a morte: este é o Juízo Particular, o julgamento individual de cada um. Entrando na Eternidade, todos se apresentarão diante do Rei dos reis, e nossas vestes deverão ser brancas (Mt 22,1s): em outras palavras, devemos nos purificar espiritualmente, viver bem, praticar a Vontade de Deus na caridade, para um dia morrer bem. Quem vive dessa maneira, e conscientemente, não se apavora com a ideia da morte. Em vez de tristeza ou medo, há confiança e amor. Mesmo nos piores sofrimentos, no fundo da alma do que crê permanece a esperança, que dá paz e alegria.

Já ao pecador inveterado, podemos perceber claramente que o inverso acontece: mesmo na saúde e na riqueza, gozando os prazeres do mundo, quando ele para de se entorpecer nas muitas sensações, sente o vazio profundo da sua vida, a ausência de Deus. Só há tédio, insatisfação, desespero, desânimo, depressão...
A felicidade, em plenitude, só se encontra no Céu, em Deus: está na contemplação e “posse” de Deus; contemplação e posse da Verdade, da Beleza e do Amor. Só em Deus seremos plenamente felizes e realizados. E para chegar ao Céu é preciso levar Deus dentro de si, desde agora, desde já.
O Juízo Universal
Além do juízo particular, que ocorre logo após a morte de cada um, há o Juízo Universal, que é o julgamento coletivo, que ocorrerá no fim dos tempos. O Antigo e o Novo Testamento falam do assunto. O capítulo 5 do Livro da Sabedoria é inteiramente dedicado ao Juízo Final.

Já o livro do Profeta Isaías (66, 18) diz:

“Virei recolher as tuas obras e os teus pensamentos e irei reuni-los com os de todas as gentes e línguas; e eles comparecerão, todos, e verão a minha Glória”.

Nos Atos dos Apóstolos (1,11) vê-se que, logo após a Ascensão, a volta de Jesus como Juiz foi anunciada por dois anjos. Os Apóstolos S. Mateus (cap. 24) e S. Lucas (cap. 21) falam longamente sobre o assunto.


No Juízo Final, o julgamento será definitivo. Depois, haverá o Céu ou o Inferno. Este mundo físico acabará. Quando e como, exatamente, será o fim do mundo, não sabemos. Jesus diz que nem os anjos o sabem. No último dia, haverá a ressurreição da carne: os justos ressuscitarão gloriosos, semelhantes ao Cristo ressuscitado. Para estes, a morte será o encontro com o melhor de todos os pais: o Pai do Céu. E tudo o que foi encoberto será conhecido; a verdade será revelada a todos. Será a hora da perfeita reabilitação dos caluniados, dos difamados, dos injustiçados, dos sofredores. Os que tem fome e sede de Justiça serão saciados.
Muitos teólogos entendem que o desdobramento do Julgamento divino em Juízo Particular e Juízo Final ou Universal deve-se ao fato de nós, seres humanos, pensarmos em termos de sucessão cronológica: um morre hoje, outro amanhã... Mas para Deus, da perspectiva do Eterno, existe um só momento: a Eternidade. Sendo Deus eterno, para Ele não há hoje e amanhã; Deus é o eterno Eu Sou: tudo o que realmente existe é um só momento, que não tem princípio nem terá fim.

O Juízo Particular e o Universal, a partir desta perspectiva, seriam, de um modo que não podemos agora compreender, uma só coisa: uma mesma realidade vista a partir da eternidade, e não a partir da sucessão cronológica das vidas humanas à qual estamos habituados e  presos.
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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pecado mortal e pecado venial







MUITOS LEITORES nos pedem orientações com relação aos significados dos termos pecado mortal e pecado venial, via de regra solicitando listas dos referidos pecados, – uma relação que especifique quais são os mortais e quais os veniais, elencando um por um. Alguns dão a nítida impressão de querer saber se determinados pecados são veniais simplesmente para que possam continuar a praticá-los, sem medo de perder a alma no inferno...

Entendemos que muito mais importante e bem mais útil do que listar e classificar os atos pecaminosos, um por um (até porque esta seria uma tarefa mais que complexa e incerta) é esclarecer o que define os pecados como mortais ou veniais. Nesta matéria, o realmente fundamental é saber discerni-los com clareza, já que àqueles que sabem discerni-los a partir daquilo que os define, fica de uma vez por todas esclarecida a questão.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), o pecado é, entre outras coisas, uma falta contra a razão, contra a verdade e contra a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a algum bem, colocado antes ou à frente do próprio Deus, que é nosso Sumo Bem. O pecado fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana, seja por pensamento, palavra, ato, omissão ou desejo contrário à Lei divina (cf. CIC §1849).

Essa descrição do pecado talvez pareça dura para alguns, especialmente os mais jovens. Será que até pensar pode ser pecado? E como é que somente desejar alguma coisa é pecado? Quem é capaz de dominar completamente os desejos ocultos de seu próprio coração? São perguntas válidas. Para respondê-las, antes de tudo, é preciso entender que o pecado, para ser vencido, precisa ser identificado e combatido já na sua raiz. Nosso Senhor Jesus Cristo diz:

"Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não cometerás adultério'. Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração. Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, pois te é preferível que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno." (Mt 5, 27-29)

A Lei mandava não adulterar. Este seria um pecado mortal. Mas vem Jesus, que consumou a Lei, e diz que apenas olhar com cobiça uma mulher já é pecado. Ora, cremos plenamente que Jesus veio para nos libertar, para nos livrar de um jugo pesado, para substituir a dureza da Lei pela suavidade da Graça e nos levar a trocar o caminho do medo pelo Caminho do Amor. Ele próprio assim declarou, em diversas passagens, e toda a Tradição cristã, juntamente com a Sagrada Escritura, continuamente o confirma; mas em certos momentos parece ficar a impressão de que as coisas ficaram mais difíceis, já que a exigência aumentou. Será mesmo?

Ocorre que, a partir de Jesus Cristo, ser fiel a Deus e ganhar a Graça Divina deixou de depender de se observar uma coleção de preceitos, como muitos legalistas erradamente entendiam nos tempos do Antigo Testamento. Não se trata de carregar uma lista do que "pode" e do que "não pode" debaixo do braço. A partir da vinda e do Sacrifício do Filho de Deus, não basta mais a observância externa, ritualista, superficial. Nos novos tempos, da Nova e Eterna Aliança, é necessário aderir ao Evangelho de todo o coração e alma, – o que requer conversão total de vida.



Conversão é uma mudança radical de direção. Metaforicamente falando, é uma virada de 180 graus. Se vínhamos avançando em determinado sentido, agora é preciso dar meia volta e caminhar no sentido oposto. Uma tal adesão, de todo coração, de todo entendimento e de toda a alma, não pode ser superficial. É preciso amar de fato a Deus sobre todas as coisas, e, assim, o próximo como a si mesmo. E quem ama a Deus mais do que tudo não tem como amar o pecado, que ofende a Deus e nos afasta dEle. – Por isso é que não só o adultério é pecado, mas também o querer adulterar, o pensar, imaginar, sonhar com isso. Quem está verdadeiramente bem decidido e mantém os pés firmes no Caminho (Cristo) não se distrai olhando para trás, menos ainda alimenta desejos secretos de caminhar na direção contrária.

Ser verdadeiramente cristão, portanto, é algo completamente diferente de ser adepto de qualquer religião legalista e/ou superficial, que simplesmente observa frios rituais vazios e vive de falsas aparências. Ser cristão de fato é, em uma palavra, ser honesto. É ser autêntico. Ou se é cristão de verdade ou se é uma caricatura de cristão (algo que, aliás, infelizmente, é o tipo mais comum).

Falando então do modo mais resumido possível, o pecado é uma ação contrária ao Amor de Deus, – por uma escolha, uma decisão livre do indivíduo. – Assim como o ser humano é livre para amar, obedecer e praticar o bem, também é livre para odiar e desobedecer, e desobedecer até até às últimas consequências. Até a morte eterna. É isso que o mesmo Catecismo chama de liberdade ou "possibilidade radical" do ser humano. A liberdade de escolha que Deus dá ao homem é ilimitada. Cabe-nos o poder da escolha, para o bem ou para o mal.

"Os Céus e a Terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua Voz e unindo-te a Ele; pois Ele é a tua vida." (Dt 30,19-20)
É sabido também que existe uma grande variedade de pecados e, apesar de todos afastarem de Deus, estão separados em diferentes graus. A Sagrada Escritura traz várias listas e descrições. São Paulo Apóstolo, por exemplo, na Carta aos Gálatas fala das "obras da carne manifestas, as quais são: a prostituição, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, as bebedeiras, as orgias e coisas semelhantes a estas" (5,19-21).
É deste modo que os pecados cometidos pelos homens, conforme a sua gravidade, são divididos em mortais ou veniais. Por pecado venial entende-se aquele ato que não separa o homem totalmente de Deus, mas que fere a Comunhão com o Criador. Já o pecado mortal, por sua vez, atenta mais gravemente contra o Amor de Deus, desviando o ser humano de sua finalidade última e da Bem-aventurança, excluindo-o do estado de graça.

Ensina o Catecismo:
"É pecado mortal o que tem por objeto uma matéria grave, e é cometido com plena consciência e de propósito deliberado. (...) A gravidade dos pecados é maior ou menor: um homicídio é mais grave que um roubo. (...) Para que o pecado seja mortal tem de ser cometido com plena consciência e total consentimento. Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, da sua oposição à Lei de Deus. E implica também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma opção pessoal.
A ignorância simulada e o endurecimento do coração (97) não diminuem, antes aumentam, o caráter voluntário do pecado. (...) O pecado cometido por malícia, por escolha deliberada do mal, é o mais grave. O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, tal como o próprio amor. Tem como consequência a perda da caridade e a privação da graça santificante, ou seja, do estado de graça. E se não for resgatado pelo arrependimento e pelo perdão de Deus, originará a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no Inferno, uma vez que a nossa liberdade tem capacidade para fazer escolhas definitivas, irreversíveis. No entanto, embora nos seja possível julgar se um ato é, em si, uma falta grave, devemos confiar o juízo sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus." (CIC §1857 - §1861)

O pecado mortal, portanto, só acontece quando o indivíduo comete um delito contra Deus consciente dos requisitos descritos acima, e não somente pela matéria grave, isto é, a gravidade do ato em si. Uma pessoa sem formação moral e intelectual adequada, e sem condições de adquiri-la, que pratica uma ação pecaminosa, pode ser isenta de culpa por se enquadrar no caso da chamada ignorância invencível.

Por outro lado, existe também a ignorância afetada, quando a pessoa tinha condições de conhecer a verdade, mas por interesse próprio, simplesmente para poder pecar, preferiu não conhecê-la. Neste caso, o indivíduo peca ainda mais gravemente.
Na prática, quais os efeitos do pecado mortal sobre a pessoa que o comete? Como visto, a exclusão do Reino de Deus e a morte eterna no inferno, já que a nossa liberdade é radical: temos até mesmo o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. – Após esta vida entraremos na eternidade, libertos do fator tempo; no estado em que deixarmos este mundo, permaneceremos, em estado de graça ou não, – unidos a Deus ou aos seus inimigos, numa realidade em que não há ontem nem haverá amanhã. Estaremos plena e perenemente com Deus ou separados dEle, sem tempo, sem mudança, sem variações.


Johann Heinrich Füssli, "O pecado seguido da morte" (1794-1796)

E quanto aos pecados veniais? Seriam estes inofensivos, desprezíveis? Muitos entendem que apenas os pecados mortais devem ser prevenidos, evitados e confessados, imaginando que os pecados veniais não seriam importantes e/ou seriam perdoados "automaticamente". Esta linha de pensamento não corresponde à realidade, pois um pecado mortal muitas vezes é gerado por uma quantidade de pecados veniais cometidos antes. O pecado venial, embora pareça sem importância, é um passo que conduz ao abismo. Diz o livro do Eclesiástico: “Quem despreza as coisas pequenas, pouco a pouco cairá” (19,1). Aquele que, despreocupadamente, se entrega à prática dos pecados veniais, despreza as coisas pequenas. Pouco a pouco se dispõe a cair totalmente, até naufragar de vez nas águas pútridas e fétidas do pecado mortal.

Um após outro, os pecados veniais levam o indivíduo ao abismo, que é o rompimento da amizade com Deus. Para explicar melhor como se dá a ação dos pecados veniais, o Catecismo cita Santo Agostinho :
"O homem não pode, enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes; se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los! Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então a nossa esperança? Antes de tudo, a Confissão... [Sto. Agostinho, In epistulam Iohannis Parthos tractatus, 1, 6: PL 35, 1982]" (CIC §1863)

Portanto, para evitar o rompimento da amizade com Deus, ou seja, evitar cometer um pecado grave, é preciso combater os chamados pecados veniais, os quais são passos em direção ao abismo. E muitos passos juntos percorrem quilômetros. Nesse sentido, o Sacramento da Confissão é o único remédio eficaz, que pode refrear essa triste caminhada ou íngreme descida, rumo ao abismo definitivo que chamamos Inferno.


Com pequenos passos, um após o outro,
percorre-se um longo caminho

Uma reflexão final: porque é tão difícil combater o inimigo de todos nós, o inimigo da vida e da humanidade, Satanás, com seus anjos? Se queremos seguir o Caminho, que é Jesus, e sermos fiéis a Deus, vivendo uma vida de bem-aventuranças e alcançarmos por fim a vida eterna, por que voltamos sempre a tropeçar, e nossos passos se desviam? A resposta é simples: é assim porque os demônios nos atacam com uma arma terrível e formidável: o prazer. Sim. Via de regra, o pecado é prazeroso, e se não fosse não seria tão perigoso.

Façamos uma brevíssima análise dos pecados capitais: gula; luxúria; avareza; ira; inveja; preguiça; orgulho ou soberba. Todos eles capturam a pessoa humana, direta ou indiretamente, pelo prazer, – seja o prazer de comer e beber (gula); o prazer desordenado do sexo (luxúria); o apego ao dinheiro e, consequentemente, aos inúmeros prazeres que nos pode proporcionar, inclusive o prazer de ter poder (avareza); seja na inveja do nosso próximo, que tem ou vive uma situação mais prazerosa que a nossa; na ira que invariavelmente explode quando algo ou alguém nos submete a uma situação de privação de prazer ou prazeres; seja a delícia de não fazer nada, sem ter nenhum compromisso (preguiça) ou a satisfação egoísta de se sentir superior ao próximo (orgulho).

O prazer escraviza. Uma vida em pecado é uma vida de escravidão. Uma velha canção popular perguntava: "Será que tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda?". – Quanto mais escravizados, mais forte a sensação de "não posso fazer nada do que gosto". – Quanto mais nos tornamos realmente livres, porém, mais compreendemos o verdadeiro significado da palavra liberdade, tão distante de libertinagem.
"O pecado cria uma propensão ao pecado; gera o vício pela repetição dos mesmos atos. Disso resultam inclinações perversas que obscurecem a consciência e corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se, mas não consegue destruir o senso moral até a raiz." (CIC §1865)

Entregar-se ao pecado é verdadeiramente o completo oposto de ser verdadeiramente livre. – O prazer do pecado parece bom por um momento, mas dura pouco e, depois que acaba, o pecador continua, por um lado, o mesmo, e por outro, ainda pior: continua vazio, e um pouco mais escravo.

Claro que uma vida sem pecado não precisa ser, necessariamente, uma vida completamente destituída dos prazeres deste mundo. Não somos máquinas, e nossas mentes e almas precisam de descanso. Pequenos prazeres e distrações, de vez em quando, são sem dúvida benéficos. Somos, sim, livres, e tudo nos é permitido, dentro daquilo que nos convém enquanto cristãos. "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma" (1Cor 6,12). – A grande arte da alma livre é, justamente, aprender a não se deixar dominar por nada e nem por ninguém, porque deve obediência somente a Deus.

Consta que certa vez um penitente perguntou ao santo Padre Pio de Pietrelcina como distinguir uma tentação de um pecado, e como se pode estar certo de que não pecou. Padre Pio sorriu e respondeu: "Como se distingue um burro de um homem? O burro tem de ser conduzido; o homem conduz a si próprio".
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quinta-feira, 12 de maio de 2016

PORQUE IR A SANTA MISSA AO MENOS AOS DOMINGOS






QUANDO, NO CAIR DA TARDE de um domingo, as vias de acesso a uma de nossas grandes cidades congestionam-se com milhares de carros que retornam de um fim de semana no litoral ou no campo, uma pergunta me ocorre, e já nasce triste no meu coração: quantos desses homens e mulheres,sejam maduros, jovens ou crianças, terão ido à Missa, hoje ou ontem à tarde?
E a tristeza se acentua quando vou ao shopping e vejo a imensidão de pessoas que se entregam com tanta voracidade ao consumismo desenfreado. São grandes filas para comer um sanduíche numa lanchonete, para entrar nas salas de cinema, e/ou para aproveitar alguma liquidação na loja da moda...
Também me surpreendo quando passeio por certos pontos da cidade e vejo as enormes filas que dão voltas nos quarteirões, milhares e milhares de pessoas à espera da sua vez para entrar num estádio de futebol: multidões que parecem pensar que o destino do Universo depende unicamente das peripécias de uma bola e da emoção de um gol... Claro que eu não condeno o lazer ou o prazer de um bom passeio, nem sou contra quem vai assistir a um bom filme no cinema, e muito menos poderia ser contra o esporte ou a prática de atividades esportivas. Tudo isso pode ser muito bom e muito saudável. Mas... quantas dessas pessoas, que superlotam os parques e shoppings, terão se lembrado de Deus nas suas horas de folga e de lazer?

Quantos, no dia seguinte, voltarão ao trabalho realmente refeitos, não só de corpo como também de alma? Quantos destes poderiam se enquadrar na famosa frase de Santo Agostinho: “Meu coração está inquieto,e não descansará enquanto não repousar somente em Ti”?

Perdeu-se a noção da dignidade e da importância diferenciada do domingo, como o momento insubstituível de culto ao Divino, e também de descanso espiritual, tanto para o indivíduo quanto para a família. Em nossas consciências está se esvaziando do seu real conteúdo o Dia do Senhor. E com esse esvaziamento compromete-se um importantíssimo valor cristão.

Essa é a origem etimológica da palavra domingo: Dies Domini. Não está em jogo aqui uma questão desnecessária, de menor importância. A participação atenta, profunda e proveitosa na Santa Missa é uma condição indispensável para a autêntica vida cristã! Assim o lembrou o Papa João Paulo II: “Tomem a sério o convite que a Igreja lhes dirige, com caráter obrigatório, para participar todos os domingos da Santa Missa”...

Que todo domingo seja configurado por essa nossa Fonte de Energia, como dia consagrado ao Senhor. A Ele pertence nossa vida, e somente a Ele se deve a nossa adoração. Todo domingo é uma maravilhosa oportunidade que nos é dada, de beber dessa Fonte, nesse processo de “recarregar baterias” espirituais no dia consagrado ao Senhor. Um momento para refazer as forças do corpo e do espírito, mudando as nossas atividades habituais, deixando a rotina (muitas vezes massacrante) de lado.


Desculpas para o não cumprimento do preceito dominical

Já ouvi dizer que o comparecimento à Missa pode atrapalhar a necessidade de descanso, lazer e/ou integração social. Colocam-se à frente de Deus: a festinha de aniversário, o churrasco, o futebol, o lazer, as atividades sociais... Alguém que realmente pensa assim simplesmente não compreende que as duas coisas, Missa e descanso, não são opostas, mas devem se completar!

O passeio, o esporte, o lazer e o repouso são oportunidades para o ser humano serenar corpo e espírito, e se colocar, assim, em condições ideais para entrar em Comunhão com o Criador. E ir à santa Missa, colher os frutos maravilhosos que só a Celebração Eucarística e a Comunhão com Deus pode nos oferecer.

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Fonte:
CINTRA, Luiz Fernando. Por que ir à Missa aos Domingos? São Paulo: Quadrante, 1989, pp. 3, 4.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A DIFERENÇA ENTRE CATÓLICOS ORRTODOXOS E ORIENTAIS

 
 
 
 
 
 
 
DE TEMPOS EM TEMPOS, surge algum leitor que nos propõe esta pergunta. Entendemos, então, que chega o momento de respondê-la: em síntese, são treze as diferenças doutrinárias e disciplinares que distanciam os ortodoxos orientais da Igreja Católica.

É interessante notar que a maioria daqueles que de modo superficial simpatizam com a rica tradição ortodoxa oriental acabam por entender que ela perde, por assim dizer, o "encanto" quando conhecida a fundo e vista bem de perto. Apesar do grande respeito que temos por estes nossos queridos irmãos cismáticos, não temos como negar que boa parte dos argumentos que eles utilizam para justificar os desacordos entre eles e nós, como veremos, são flagrantemente desprovidos de qualquer fundamento.

Os ortodoxos não aceitam: 1) o primado e 2) a infalibilidade do Papa; 3) a Processão do Espírito Santo a partir do Filho; 4) o Purgatório póstumo; 5) os dogmas da Imaculada Conceição e 6) da Assunção de Maria Santíssima (apenas enquanto dogmas); 7) o Batismo por infusão e não por imersão; 8) a falta da Epiclese na Liturgia Eucarística; 9) o pão ázimo (sem fermento) na Celebração Eucarística; 10) a Comunhão Eucarística sob a espécie do pão apenas; 11) o Sacramento da Unção dos Enfermos como é ministrado no Ocidente; 12) a indissolubilidade do Matrimônio; 13) o celibato do clero.

Seja observado, logo de início, que em geral os orientais têm por ideal a volta da Igreja ao que ela era até o sétimo Concílio Geral (Nicéia II em 787), pois aceitam plenamente os Concílios de Nicéia I (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla II (553), Constantinopla III (681), Nicéia II (787). O Concílio de Constantinopla IV, que excomungou o Patriarca Fócio em 869/870, evidentemente é rejeitado pelos orientais.

Como se pode ver, nem todos esses pontos diferenciais são da mesma importância. O que mais concorre para a manutenção do Cisma é o da fidelidade ao Papa como Pastor Supremo, assistido pelo Espírito Santo em matéria de fé e de Moral. A seguir, comentamos e procuramos esclarecer cada um destes pontos:

1. Primado do Papa

Alega a Teologia ortodoxa que a jurisdição universal e suprema do Papa implicaria que os outros bispos são subordinados a ele como nada além de seus representantes, o que eles consideram um desvio ou um erro. A esta concepção equivocada, porém, respondeu o Concílio do Vaticano II:

Aos Bispos é confiado plenamente o ofício pastoral ou o cuidado habitual e cotidiano das almas. E, porque gozam de um poder que lhes é próprio e com toda razão são antístites dos povos que eles governam, não devem ser considerados (meros) vigários (representantes) do Romano Pontífice.”
(Constituição Lumen Gentium 27)
Como demonstra muito facilmente a mais elementar noção do senso comum (entenda), não há nenhum sentido em se questionar o primado do Bispo de Roma, o Papa, que garante a unidade e a coesão da Igreja, preservando-a de iniciativas meramente pessoais e subjetivas. Exatamente por isso o discípulo Simão, e apenas ele, recebeu o nome-título de Pedra-Cefas (entenda).

2. Infalibilidade do Papa

Em 1870, fazendo eco à fé antiquíssima dos cristãos, o Concílio do Vaticano I declarou o Papa infalível quando fala em termos definitivos para a Igreja inteira e em matéria de fé de moral (entenda). – Já segundo a Teologia ortodoxa oriental, esta definição extinguiria a autoridade dos Concílios.
Evidente que tal contestação não em nenhuma razão de ser, pelo simples fato de que o Papa não pode "decidir" nada contrário àquilo que foi definido dogmaticamente em qualquer Concílio da Igreja. Já no tempo dos Apóstolos ocorreu o primeiro Concílio, em Jerusalém1. Segundo a Igreja Católica, então, os Concílios gerais ou universais têm plena razão de ser, já que também o Papa participa deles (por si ou por seus delegados) e aprova as suas conclusões. Nos nossos dias, mais e mais se têm insistido sobre a colegialidade dos Bispos.

3. A procedência do Espírito Santo a partir do Filho (Filioque)

Esta é possivelmente a mais conhecida discordância entre católicos e ortodoxos e que, mais uma vez, não tem nenhuma razão de ser a não ser a pura incompreensão e a inflexibilidade para o diálogo aberto e fraterno, como era a característica de um determinado período histórico. A concepção da Igreja Católica decorre do fato de que em Deus não há distinções, a não ser onde haja oposição relativa, como no caso do Filho que possui Natureza humana, sedo que o mesmo não se pode afirmar do Pai e do Espírito Santo. Entretanto, não podemos jamais nos esquecer de que não somos politeístas: cremos e adoramos apenas um Deus, que se manifesta a nós em Três Pessoas diferentes, mas não separadas2.

Se, portanto, entre o Filho e o Espírito Santo não há a separação de Espirante e Espirado, um não se distingue do outro ou, em outras palavras, o Filho e o Espírito Santo são um só em Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo, no Evangelho segundo S. João (15, 26) afirma textualmente que o Espírito procede do Pai; claramente, porém, não tenciona propor aí uma Teologia sistemática e exclusiva, mas põe em relevo um aspecto da verdade, – assim como em tantas e tantas outras ocasiões, – sujeito a ser completado pela reflexão.
De fato, no caso desta questão, a dificuldade é mais de linguagem do que de doutrina. Tanto assim que os orientais preferem dizer que o Espírito Santo procede do Pai "através do Filho", – o que claramente é apenas uma maneira diferente de dizer praticamente a mesma coisa ou, no mínimo, algo muito parecido. Torna-se evidente que, com um pouco de boa vontade, poderia-se facilmente conciliar as posições.

4. Purgatório

Este é um caso curioso e que (infelizmente precisamos dizer) evidentemente depõe contra a boa vontade dos teólogos orientais. Ocorre que os ortodoxos do Oriente aceitaram a existência do Purgatório sem nenhuma dificuldade até o século XIII. Foi somente no ano 1231 ou 1232 que o metropolita Georges Bardanes, de Corfu, pôs-se a impugnar a doutrina bíblica e apostólica do fogo do Purgatório (entenda), apenas porque não haveria, literalmente, fogo no Purgatório(!).

Os teólogos orientais subsequentes lamentavelmente vieram a apoiar a contestação de G. Bardanes, mas nem por isso ousaram negaram a realidade (como dissemos antes, plenamente bíblica e plenamente fundamentada na Tradição apostólica) da necessidade de um estado de purificação intermediário entre a vida terrestre e a bem-aventurança celeste para as almas daqueles que morrem com resquícios de pecado: estes seriam perdoados por Deus em vista da oração da Igreja; estariam assim fundamentados os sufrágios pelos defuntos.
A recusa do Purgatório, então, só ocorreu entre os orientais, absurdamente, no século XVII(!) e sob a influência de autores protestantes(!!). Ora, admitir uma doutrina que teria, então, estado errada por dezessete séculos, não é o mesmo que admitir a sua fragilidade também depois da mudança?

Por fim, o fato histórico é que daí por diante a Teologia oriental tornou-se em parte dividida; muitos teólogos ortodoxos continuam admitindo a necessidade de um estado intermediário entre a morte e a bem-aventurança celeste, assim como também reconhecem o valor dos sufrágios pelos defuntos. Eis aí mais um fato histórico e teológico que só vem a confirmar para todo o povo cristão a exclusividade da Igreja Católica no papel de única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo e mantida pelo Espírito Santo.

5. A Imaculada Conceição de Maria

Esta, incrivelmente, é por vezes confundida com um pretenso nascimento virginal de Maria (segundo tal confusão absurda, Santa Ana teria concebido sem a colaboração de São Joaquim!). Assim, simplesmente porque tal concepção virginal carece de qualquer fundamento (evidente, e nunca foi parte da Teologia católica!), também a verdadeira doutrina da Imaculada Conceição é em algum nível contestada pelos orientais, embora não seja negada por eles.

Contraditoriamente, porém, toda a literatura, a Liturgia e as mais tradicionais devoções dos ortodoxos enaltecem grandemente e com insistência (provavelmente até maior do que o fazem as obras clássicas católicas) a pureza plena e absoluta da Virgem Maria, professando a mesma coisa que nós, católicos, de modo implícito. Concretamente, a única diferença real é que eles não formularam nem definiram um dogma de fé específico a respeito desta realidade, que na prática creem de modo idêntico ao nosso, – e isto é algo bastante fácil de se confirmar, bastando que se observe a arte sacra oriental, eivada do princípio ao fim de belos e múltiplos ícones em honra à santidade incomparável de Maria Santíssima.

6. A Assunção de Maria Santíssima

Este ponto, juntamente com o anterior, é de surpreender o leigo, pois como já dissemos a devoção dos ortodoxos por Nossa Senhora é evidente e profundíssima, tanto que á primeira vista dá a impressão de ser tão grande quanto a católica ou até mesmo maior, em certas cerimônias, usos e costumes.

Crida pelos cristãos desde a Antiguidade, foi proclamado este dogma de fé pela Igreja Católica em 1950, pelo Papa Pio XII, de acordo com as tradições teológicas ocidental e oriental. Merece especial atenção, novamente, a iconografia oriental, que representa de maneira muito expressiva a Virgem sendo assunta aos Céus por seu Divino Filho (daí a diferença entre os termos 'Ascensão do Senhor' e 'Assunção de Maria': ela, elevada por Ele, que é Deus e se eleva por seu próprio Poder Divino).

Qual é, então, o problema? De fato, o que fere os orientais neste caso, – assim como no caso da Imaculada Conceição, – não é a proclamação da Assunção em si, simplesmente porque eles também creem nisto; o problema está, apenas e tão somente, na promulgação do dogma, a qual eles consideram que não deveria ter ocorrido (até por não terem tomado parte em sua elaboração).

7. Batismo por infusão ou aspersão da água

Aqui está um problema difícil de compreender, não só pelos católicos como também pela maior parte dos próprios cristãos orientais, que discordam da estranha posição ortodoxa oriental. Dizem esses teólogos que é importante no Batismo o contato da água com o corpo inteiro da pessoa, simbolizando purificação.

Para nós, católicos, tanto os de rito romano quando de rito oriental, o Sacramento é um sinal que realiza o que significa; logo, a Água batismal significa e realiza a purificação da alma. Basta lembrar que os Apóstolos, nos primeiríssimos anos, quando saíram aos quatro cantos do mundo para levar o Evangelho, nas mais diversas situações nem sempre dispunham de rios ou de grandes volumes de água para imergir os batizandos que surgiam a todo instante. Foi este, aliás, o caso do próprio S. Paulo Apóstolo, sem dúvida o mais emblemático3.
8. Epiclese

Os orientais julgam essencial na Liturgia Eucarística a Invocação do Espírito Santo (Epiclese) antes das palavras da Consagração; ora, estas faltam no Cânon Romano (Oração Eucarística nº 1), pois os latinos julgam que a Consagração do pão e do vinho se faz pela repetição das palavras do Cristo, assim como Ele ordenou: “Isto é o meu Corpo… Isto é o meu Sangue…”.

Assim, as Orações Eucarísticas compostas depois do Concílio VII (1962-65) têm a Epiclese não para corrigir uma pretensa "falha" anterior, mas para salvaguardar uma antiga Tradição.

9. Pão ázimo

Jesus, em sua última ceia, observou o ritual da Páscoa judaica, que prescrevia (como ainda prescreve) o uso do pão ázimo ou não fermentado. A Igreja Católica também guardou o costume, – que foi, assim, guardado pelo próprio Cristo, – na Celebração da Eucaristia. Está mais do que bem respaldada, como se vê.

Uma observação importante: o uso do pão fermentado não é excluído por nós, católicos, pois, em última análise, se trata sempre de pão.

10. A Comunhão Eucarística sob as espécies do pão apenas

Até o século XII, a Comunhão era ministrada sob as duas espécies, pão e vinho; o uso foi abolido em razão dos graves inconvenientes que gerava (profanação, sacrilégios…). Todavia, após o Concílio VII é permitido que se dê a Comunhão sob as duas espécies a grupos devidamente preparados.

11. Unção dos Enfermos

Baseados na Epístola de S. Tiago (5,14ss), os orientais ortodoxos têm a Unção dos Enfermos como Sacramento. Divergem, porém, dos ocidentais em dois pontos:
a) A Unção não é reservada aos gravemente enfermos nem tem a marca de preparação para a morte, mas, ao contrário, vem a ser um rito de cura para qualquer enfermo;
b) A Unção, no Oriente, tem forte caráter penitencial, a tal ponto que ela é conferida também aos pecadores, mesmo os sadios, a título de satisfação pelos pecados.
Pode-se dizer, portanto, que a Unção “dos Enfermos” nas comunidades orientais ortodoxas é dada a todos os fiéis que tenham algum problema de saúde corporal ou espiritual. Isto ocorre especialmente na Semana Santa e entre os russos.
Essas diferenças, bastante suaves e simples de contornar, infelizmente foram muito exploradas nos debates entre latinos e gregos. Os ocidentais reservam a Unção para os casos de moléstias graves ou sério perigo de vida (entenda a Unção dos Enfermos).

12. Divórcio

Baseados no Evangelho segundo S. Mateus (5,32 e 19, 9) mas indo contra ao que dizem os Evangelhos segundo S. Marcos (10, 11s) e S. Lucas (16,18), e a 1ª Carta de S. Paulo aos Coríntios (7,10ss), os ortodoxos reconhecem o divórcio.

A Igreja Católica, por coerência, não interpreta S. Mateus em sentido contrário a S. Marcos, S. Lucas e S. Paulo, o que seria absurdo; assim, não reconhece o divórcio de um Matrimônio sacramental validamente contraído e consumado, mas entende que em Mt 5 e 19 se trata da dissolução dos casamentos ilícitos, o que ela pratica até hoje (entenda).

13. Celibato do Clero

Segundo a compreensão desses nossos irmãos, seria esta uma restrição imposta nos séculos posteriores, contrária à decisão do primeiro Sínodo Ecumênico no ano 325. Há alguma verdade nisso?
O celibato do clero tem seu fundamento na 1ª Carta de S. Paulo aos Coríntios (7, 25-35), onde S. Paulo recomenda expressamente a vida una ou indivisa. Esta foi sendo praticada espontaneamente pelo clero até que, em aproximadamente 306, o Concílio regional de Elvira (Espanha) a sancionou para os eclesiásticos de grau superior. A legislação de Elvira foi-se propagando no Ocidente por obra de outros Concílios regionais.
Diferentemente, os orientais estipularam que, após a Ordenação, os clérigos de grau superior (do diaconato para cima) não poderiam contrair Matrimônio, mas eram autorizados a manter o uso do Matrimônio os que tivessem casado antes da ordenação. O Concílio de Niceia I (325) rejeitou a proposta segundo a qual o celibato no Oriente seria observado sem exceções, como no Ocidente; isto por protesto do Bispo egípcio Pafnúncio, o qual guardava pessoalmente o celibato. Os Bispos orientais são todos celibatários e, por isto, recrutados entre os monges.
† † †

Como se vê, no último item como em outros, muitas das diferenças são disciplinares e não impedem a volta à unidade entre cristãos orientais e ocidentais. Podem-se admitir o pão fermentado na Eucaristia, a Epiclese como regra, que parte do clero seja casada. Outros pontos podem ser discutidos com muita tranquilidade, e com alguma revisão de termos, chegar-se a um termo, como é o caso da procedência do Espírito Santo. O maior obstáculo permanece o do primado do Papa.
Paulo VI e João Paulo II demonstraram compreender bem o problema, que acreditavam (como a Igreja ainda crê) que pode ser resolvido satisfatoriamente sem que se abra mão dos pontos inegociáveis de nossa fé e doutrina. Escreveu S. João Paulo II em sua encíclica Ut Unum Sit ('Para que seja um'), a qual é muito recomendável que seja lida e compreendida por todos os católicos:

Entre todas as Igrejas e Comunidades Eclesiais, a Igreja Católica está consciente de ter conservado o Ministério do sucessor do Apóstolo Pedro, o Bispo de Roma, que Deus constituiu como perpétuo e visível fundamento da unidade e que o Espírito ampara para que torne participantes deste bem essencial todos os outros.

Segundo a feliz expressão do Papa Gregório Magno, o meu Ministério é de Servus servorum Dei. Por outra parte, como pude afirmar por ocasião do Encontro do Conselho Mundial das Igrejas em genebra aos 12 de junho de 1984, a convicção da Igreja Católica de, na fidelidade à Tradição apostólica e à fé dos Padres, ter conservado, no Ministério do Bispo de Roma, o sinal visível e a garantia da unidade, constitui uma dificuldade para a maior parte dos outros cristãos, cuja memória está marcada por certas recordações dolorosas. Por quanto sejamos disso responsáveis, como o meu Predecessor Paulo VI, imploro perdão.

Com o poder e a autoridade sem os quais tal função seria ilusória, o Bispo de Roma deve assegurar a comunhão de todas as Igrejas. Por este título, ele é o primeiro entre os servidores da unidade. Tal primado é exercido em vários níveis, que concernem à vigilância sobre a transmissão da Palavra, a celebração sacramental e litúrgica, a missão, a disciplina e a vida cristã. Compete ao Sucessor de Pedro recordar as exigências do bem comum da Igreja, se alguém for tentado a esquecê-las em função dos interesses próprios. Tem o dever de advertir, admoestar e, por vezes, declarar inconciliável com a unidade da fé esta ou aquele opinião que se difunde. Quando as circunstâncias o exigirem, fala em nome de todos os Pastores em comunhão com ele. Pode ainda – em condições bem precisas, esclarecidas pelo Concílio do Vaticano I – declarar ex cathedra que uma doutrina pertence ao depósito da fé. Ao prestar este testemunho à verdade, ele serve à unidade

Dirigindo-me ao Patriarca Ecumênico Sua Santidade Dimitrios I, disse estar consciente de que, 'por razões muito diferentes, e contra a vontade de uns e outros, o que era um serviço pôde manifestar-se sob uma luz bastante diversa'. Mas é com o desejo de obedecer verdadeiramente à Vontade de Cristo que eu me reconheço chamado, como Bispo de Roma, a exercer este Ministério. (…) O Espírito Santo nos dê sua Luz e ilumine todos os pastores e os teólogos das nossas Igrejas, para que possamos procurar, evidentemente juntos, as formas mediante as quais este Ministério possa realizar um serviço de amor reconhecido por uns e por outros.

(Ut Unum Sit nºs 88/94-95, 25/5/1995)
Vemos que o Papa não abdica (nem poderia abdicar) do seu Ministério, que garante a unidade da Igreja, antes o afirma com todas as letras; mas pede que os teólogos proponham modalidades de exercício desse Ministério que satisfaçam a todos os cristãos (leia a Ut Unum Sit na íntegra).

Suplicamos, humildes, ao Espírito Santo que inspire os responsáveis para que realmente colaborem para a solução das dificuldades que os cristãos não católicos enfrentam no tocante ao primado do Papa!
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Notas:
1. Por volta do ano 48, apresenta-se em Antioquia o problema relativo à oportunidade da circuncisão para os não-judeus, quando cristãos provenientes da Judeia reclamam a 'liberdade adquirida em Cristo Jesus', que Paulo e Barnabé também invocam para não impor esse rito aos cristãos vindos do paganismo. A comunidade então interpelar os Apóstolos e os Anciãos de Jerusalém e lhes enviam Paulo e Barnabé, com seu companheiro grego Tito, acompanhados de uma delegação.
(N. do A., conf. Portal do Vaticano: Basilica San Paolo Fuori le Mura, disp. em:
vatican.va/various/basiliche/san_paolo/po/san_paolo/concilio.htm
Acesso 26/4/016)


2. 'As Pessoas divinas são relativas umas às outras. Por não dividir a Unidade divina, a distinção real das Pessoas entre si reside unicamente nas relações que as referem umas às outras: nos nomes relativos das Pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao Pai, o Espírito Santo aos dois; quando se fala destas três Pessoas, considerando as relações, crê-se todavia em uma só Natureza ou Substância. Pois tudo é uno n'Eles, onde não se encontra a oposição de relação. Por causa desta Unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho'.
(CIC §255)

3. O Batismo por aspersão (com a água aplicada geralmente sobre a cabeça) é explicitamente descrito  nas Sagradas Escrituras como prática comum da Igreja (ainda que não exclusiva) desde os primeiríssimos tempos. No caso do Apóstolo Paulo, ainda chamado Saulo quando partiu para Damasco em perseguição à Igreja (At 9,1-2), após a sua maravilhosa conversão mediante a visão do Senhor, foi recebido em casa de um Judas (onde permaneceu, cego e em jejum absoluto, por três dias) e ali mesmo foi batizado por Ananias, dentro de um quarto e em pé: 'Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizadoDepois tomou alimento e sentiu-se fortalecido.' (At 9,18-19). Na expressão no original em grego koiné,ANASTAS EBAPTISQH (anastas ebaptisthê), o particípio 'anastas' indica uma ação imediata entre o levantar e ser batizado. Havia certamente água no quarto porque já era prática judaica aspergirem-se frequentemente em diversas situações.
• Além deste caso, o mesmo Livro dos Atos menciona carcereiro de Filipo, que foi igualmente batizado 'imediatamente' em sua casa, juntamente com 'toda a sua família' (At 16, 33), em sua residência, logo após lavar as chagas de Paulo e Silas, sem nenhuma menção a rio, piscina ou grande tanque.
• O segundo capítulo do Livro dos Atos ainda menciona que 'mais ou menos três mil' foram batizados em Jerusalém. Note-se que não havia rio ou água corrente dentro da cidade que permitiria a imersão
de milhares de pessoas naquela ocasião. 

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Ref.:
BETTENCOURT, Estevão, osb, revista 'Pergunte e responderemos' nº 480, 2002, pp. 200ss
www.ofielcatolico.com.br